Símbolos

DA NATUREZA DOS SÍMBOLOS

Um símbolo é antes de tudo uma ligação entre o visível e o invisível. Expressa uma ideia sem precisar encontrar palavras para defini-la. Um símbolo supre a ausência de uma palavra. Um símbolo também representa uma imagem e as imagens ajudaram a formar os mitos.

“Hoje, já se compreende uma coisa que o século XIX sequer pressentia: que o símbolo, o mito, a imagem, pertencem à substância da vida espiritual. O simbolismo é uma noção imediata da consciência total, ou seja, do homem que se descobre como tal, do homem que toma consciência de sua posição no universo.” Mircea Eliade.

Todo símbolo possui a capacidade de expressar o não dito. A imagem do símbolo tem o poder de revelar uma presença na ausência. Por isso um símbolo tem vida própria. Um exemplo: pense na morte, não podemos vê-la ou tocá-la, mas um caixão, uma foice, ou ainda um cemitério (seus principais símbolos) a representam e nos lembram de que ela existe, atua, e paradoxalmente “está viva!”. Por essa razão um símbolo transcende todo raciocínio linear e lógico e se transforma em um fio condutor para os níveis sutis de percepção da realidade, ampliando significativamente a consciência do indivíduo. Os símbolos também possuem uma multiplicidade infinita de significados que se ampliam ou diminuem de acordo com o desenvolvimento da consciência e da percepção do indivíduo ajustadas, sempre de forma elástica, a uma determinada época. Pensando sobre essas coisas Jung definiu os símbolos dessa forma: A linguagem universal arquetipicamente rica, capaz de exprimir por meio das imagens várias coisas ao mesmo tempo.”

Podemos criar símbolos a todo instante, certo? Errado! Um símbolo só é realmente considerado como tal quando consegue ir além ou transcender sua finalidade material e funcional. Nem tudo que conhecemos são símbolos, pois é necessária certa dose de “substância espiritual” para defini-lo como tal. Entretanto a palavra substância está relacionada com o plano físico, a matéria. Todavia, o termo “substância espiritual” está associado ao conceito de “eternidade e perfeição” revelando uma total ausência de desarmonia ou decomposição de qualquer ordem. O amor seria um exemplo de substância espiritual que se manifesta de forma limitada e fragmentada no plano físico sem apresentar decomposição em sua essência primeva. Os símbolos existem no universo espiritual reverberando eternamente sua essência imutável em todas as direções. No texto Hebreus 10:34 está escrito: “Tendes no céu uma substância superior e duradoura”. Essa afirmação também pode ser utilizada aos conceitos mencionados acima confirmando a dicotomia neles presente, pois substância é uma palavra usada para exprimir riqueza, sabedoria, profundidade e conteúdo no plano físico sugerindo apesar de tudo limites, e transcendência e eternidade no plano espiritual, tudo isso tendo como base fundamental a unidade essencial a todas as formas como, por exemplo, o símbolo que cada indivíduo usa para representar Deus. Embora os símbolos possam variar de forma e tamanho a ideia que fazemos de Deus é uma só: o Todo Indivisível.

 Algumas tribos indígenas da América do Norte e Central costumavam usar árvores para representar um deus ou o universo ou ainda um aspecto ou atributo desse deus ou do universo. Esse ato sagrado transformava a árvore em símbolo desse contato com o sutil, pois essa ação mágica garantia a árvore certa carga de substância espiritual (essência) capaz de atuar em outras esferas de realidades não perceptíveis a mente humana. A árvore, dessa forma, passava a transcender a realidade material e se convertia em um portal revelando ainda, a existência de um universo espiritual indivisível em sua essência onde o homem como indivíduo faz parte de uma ideia composta, feito um espelho que reflete a essência do mundo espiritual no plano físico através do exercício do amor.

O termo símbolo vem do grego sumbolon e significa “aquilo que reúne às partes”. No latim símbolo é símbolus e significa “aquilo que leva ou a porta”. Essa é a primeira indicação do poder do símbolo. Um elemento mediador, uma ponte entre os mundos com energia suficiente para unir os contrários como, por exemplo, o céu à terra. Nele, a dualidade se desfaz e aos poucos vai revelando uma tênue luz de essência divina ou “essência agregadora” que não pode ser vista através dos sentidos comuns e sim percebida usando-se outros sentidos presentes no homem através da mediunidade (importante pesquisar a glândula Pineal e suas potencialidades), por exemplo.  O entendimento que começamos a obter sobre os símbolos é a primeira chave para a compreensão do pensamento religioso e mágico de antigas civilizações. A deusa egípcia Sekhmet (deusa da guerra e das doenças) era retratada com a cabeça de uma leoa e o corpo de um ser humano, mas também era representada como uma vaca, Hathor, quando era vista como uma deusa celestial, o mesmo símbolo com dois significados diferentes e transcendentes dentro de seus respectivos planos. Entretanto, como mencionei acima, um símbolo possui muito mais do que dois significados. Essa pode ser considerada a grande epifania do sagrado em suas múltiplas facetas, revelando um conhecimento esotérico capaz de levar o indivíduo a um nível de realidade metafísica utilizando para isso o pensamento simbólico. Sem os símbolos o homem jamais poderia perceber a presença do sutil e ficaria restrito para sempre a sua esfera de realidade. O símbolo é também um catalisador de “experiências”. Sua energia e força provocam no indivíduo o despertar de potenciais “divinos” que estão latentes ou adormecidos e o auxiliam a expandir a capacidade de compreensão da consciência através de uma experimentação empírica. Isso tudo significa que o símbolo possui sua própria lógica e um conhecimento diferenciado e específico que difere do conhecimento racional que possuímos e ainda sugere que há vida autônoma dentro do símbolo, ou seja: o símbolo está vivo! Citando novamente Mircea: “O sagrado é um elemento na estrutura da consciência e não uma fase na história dessa consciência“.

O símbolo também nos mostra um ponto importante sobre a nossa mente; o de que há aspectos inconscientes da realidade que dentro dela se processam. Sobre esses aspectos Carl Jung escreveu:

“… há aspectos inconscientes da nossa percepção da realidade. O primeiro deles é o fato de que, mesmo quando nossos sentidos reagem a fenômenos reais, as sensações visuais e auditivas, tudo isso, de certo modo, é transposto da esfera da realidade para a da mente. Dentro da mente esses fenômenos tornam-se acontecimentos psíquicos cuja natureza extrema nos é desconhecida (pois a psique não pode conhecer sua própria substância). Assim toda a experiência contém um número indefinido de fatores desconhecidos, sem considerar o fato de que toda a realidade concreta sempre tem alguns aspectos que ignoramos desde que não conhecemos a natureza extrema da matéria em si… ”       O Homem e Seus Símbolos – Carl  Gustav Jung.

Outro fator importante a ser considerado sobre a importância dos símbolos diz respeito também às metas de união entre o homem e o Divino que estão presentes em todas as religiões, grupos, e escolas filosóficas e iniciáticas. Todo símbolo, associado a Deus, é um lembrete de que o Divino não passa de uma palavra que convencionamos para conceituar algo do qual não temos ideia alguma do que realmente seja. É somente uma nomenclatura criada a partir de uma crença, mas jamais se tornará uma evidência concreta. O símbolo desta forma preenche com maestria essa lacuna unindo o concreto e o abstrato e tornando-se um meio para se atingir uma meta.

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