O Senhor dos Anéis e muitas verdades…

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Sauron, Senhor do Escuro

Afinal, o que é o “Um Anel?” De acordo com a obra de Tolkien, Sauron, na Primeira Era, que antes era vassalo de Morgoth (um Valar de grande poder criado por Iluvátar e que foi exilado para a Terra Média por se rebelar contra seu criador e seus outros filhos), viu seu superior sucumbir ao poder dos outros Valar. Sauron que era um Maiar (seres que estavam muito além da compreensão humana mas que eram inferiores aos Valar) implorou perdão pelos seus abusos e erros mas  quando percebeu que iria ser julgado fugiu. Então ele retorna na Segunda Era da Terra Média que por sua vez já era governada pelo que restou dos Eldar, (Elfos representantes das três famílias que partiram para o Oeste) apresentando-se como um Annatar (Senhor dos Presentes). Ele estabeleceu uma relação amigável com os povos livres. O futuro Senhor do Escuro ofereceu sua ajuda para governar, pois possuía muita sabedoria. Os três principais governantes dos Elfos não confiavam nele ( Galadriel, Gil Galad e Círdan) mas mesmo assim ele foi recebido pelos elfos artífices de Eregion que acima de tudo desejavam os conhecimentos de Sauron para aprimorar suas técnicas. O que importa nesse ponto da história é que os Sete e os Nove anéis foram forjados pelos elfos com a participação de Sauron. Os três anéis élficos mais importantes foram forjados por Celebrimbor que era vassalo de Galadriel e de Celeborn e Sauron não teve participação alguma na forja desses anéis. Em segredo Sauron forja na Montanha da Perdição o Um Anel e transfere para esse grande anel uma parcela de seu poder. O propósito principal? Dominar todos os outros anéis que foram dados de presentes a três raças: Anões, Elfos e Homens.

Os versos gravados no Um Anel dizem:

” Três Anéis para os Reis-Elfos sob este céu,
Sete para os Senhores-Anões em seus rochosos corredores,
Nove para os Homens Mortais fadados ao eterno sono,
Um para o Senhor do Escuro em seu escuro trono
Na Terra de Mordor onde as Sombras se deitam.
Um Anel para a todos governar, Um Anel para encontrá-los,
Um Anel para a todos trazer e na escuridão aprisioná-los
Na Terra de Mordor onde as Sombras se deitam.”

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Como vamos perceber um pouco mais adiante o poder que Sauron transferiu dele mesmo para o Um Anel reside na concupiscência (Veja aqui o significado). O apóstolo Tiago sobre isso falou o seguinte:

“… Mas cada um é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência. Depois, havendo a concupiscência concebido, dá à luz o pecado;
e o pecado, sendo consumado, gera a morte…” (Tiago 1:14-15).

Isso é muito interessante, pois o Um Anel cresce ou diminui de acordo com o portador. E aqui já podemos entender que ele se ajusta ao “psicológico de cada indivíduo”, ao conhecimento adquirido ao longo da vida e também se ajusta, obviamente, a concupiscência de cada um. Então, estamos falando do Mal e da forma como esse Mal se manifesta em cada um de nós em nosso cotidiano. Tolkien nos torna conscientes de nosso fardo, pois todos carregamos, o tempo todo, anéis de poder em nossas vidas e se quer percebemos isso e a forma que o Anel (nossos interesses pessoais) nos domina se dá através da concupiscência.

Outra coisa muito importante é a viagem de Frodo, sua aventura para destruir o anel. A viagem de Frodo é um processo de individuação. Como todo herói Frodo se transforma ao longo do caminho. Sai do Condado com a alma de uma criança, carregando o Um Anel. Durante o caminho pensa em sua terra natal, sente falta dela, da sua casa, de seus vizinhos e do seu cotidiano. Tudo que ele deseja é voltar. Mas quando ele chega ao Topo do Vento (um lugar semelhante a tantos sítios arqueológicos conhecidos e que eram lugares de sacrifícios e iniciações) sua trajetória sofre uma guinada.

Topo do Vento

Topo do Vento

“…E os Hobbits governarão o futuro de todos…”

Frodo, o pequeno, é ferido pelo Feiticeiro Rei de Angmar e sua vida se transforma. Como todo processo de individuação segue um padrão, Frodo adquiri uma cicatriz que o coloca no limiar entre a Luz e da Escuridão, que nada mais é que o seu primeiro contato com a Sombra, o Ânimus e Ânima e por último o Self. Surgem os conflitos internos, a luta entre o certo e o errado e a necessidade de superação. Aqui começa a questão do Livre Arbítrio e da falsa justiça. Na República  existe um diálogo entre Sócrates e Glauco onde ele afirma que a Justiça é apenas convenção social, de aparências, e que nunca será a expressão de algo interno que faça parte da essência do homem. O Livre Arbítrio verdadeiro está em fazer escolhas de acordo com a essência e nunca baseado nas aparências, por isso Gollum queria achar o anel, colocá-lo e tornar-se invisível para matar Bilbo, mas Bilbo (outro pequeno) achou o anel e ao colocá-lo decidiu não matar Gollum, pois apiedou-se do mesmo, aqui está o Livre Arbítrio baseado na essência.

Sobre o Livre Arbítrio Santo Agostinho dizia:

“…Na verdade, se o homem fosse um certo bem, e não
pudesse, a não ser quando o quisesse, proceder virtuosamente, tinha de possuir a vontade livre, sem a qual
não poderia proceder virtuosamente. Na verdade, pelo
fato de que também por meio dela se peca, não se deve
supor que foi para isso que Deus a concedeu. Há pois
razão suficiente para ela dever ser dada, já que sem ela
o homem não pode viver virtuosamente. Ora, que para
isto foi concedida, pode até conhecer-se por este lado,
que se alguém usar dela para pecar, sobre ele recai o
castigo, da parte de Deus. Seria injusto que isso fosse
feito, caso a vontade livre nos tivesse sido dada não só
para se viver honestamente, mas também para se pecar.

Na verdade, como se infligiria justamente castigo a
quem tivesse usado da vontade para aquele fim, para o
qual ela foi concedida? Ora, quando Deus pune quem
peca, que outra coisa te parece Ele dizer, senão isto:
por que é que não usaste da vontade livre para o fim
para que eu te dei, isto é, para proceder honestamente?
Por outro lado, como existiria essa bondade, com que
a mesma justiça se enaltece ao condenar os pecados e
dignificar as boas ações, se o homem estivesse privado
do livre-arbítrio da vontade?

Com efeito, o que não se fizesse por vontade,não seria nem pecado nem boa ação.
Dessa maneira, se o homem não dispusesse de vontade
livre, tanto seria injusto o castigo como o prêmio. Ora,
não podia deixar de haver justiça, tanto na pena como
no prêmio, pois esse é um dos bens que procedem de
Deus. Deus devia, pois, dar ao homem a vontade livre…”

Santo Agostinho afirma que o Mal surge quando o homem escolhe por vontade livre criar laços ou apegar-se as coisas criadas em detrimento do Amor de Deus o que me parece que é o mesmo que ignorar a voz da consciência (Isildur quando ignora Elrond na Montanha da Perdição e toma o Um Anel para si), que é a voz da própria essência.

Sobre os Pequenos e os Grandes

O inconsciente é sempre o “pequeno” quando comparado a ilusão de poder que o ego causa. O ego sempre julga estar no controle das coisas . Mas é no inconsciente que reside a verdadeira força. Sauron representa o ego, sua sombra, e a necessidade de poder e controle. O ego é corruptível por sua própria natureza. O Um Anel representa essa corrupção. Resta a Frodo (cada um de nós) aceitar seu fardo e seguir adiante, pois o Um Anel só pode ser destruído nas chamas da Montanha da Perdição. Agora é interessante olharmos os versos novamente para entendermos a “Montanha da Perdição”  e suas chamas, pois eles dizem muitas coisas:

Três Anéis para os Reis-Elfos sob este céu,”  Uma alusão a Trindade, a ordem intelectual, a espiritualidade e a organização de um governo divino.

“Sete para os Senhores-Anões em seus rochosos corredores,”  O número sete é um número também divino por excelência mas nesse caso parece estar mais relacionado a criação  e finalização da Matéria, o que nos remete ao livro do Gênesis e os sete dias da criação. Em termos de governo e liderança parece representar a plenitude de um governo terreno inspirado em harmonia universal.

Nove para os Homens Mortais fadados ao eterno sono,Aqui é onde o governo divino se estende depois de tomar forma, e passa a se refletir em toda a sua criação. São os nove anos que representam os ciclos naturais, as gestações, o aprimoramento intelectual e a coroação de todos os esforços mas também sinaliza o início de um novo ciclo.

Um para o Senhor do Escuro em seu escuro trono
Na Terra de Mordor onde as Sombras se deitam.
Um Anel para a todos governar, Um Anel para encontrá-los,
Um Anel para a todos trazer e na escuridão aprisioná-los
Na Terra de Mordor onde as Sombras se deitam.”  

Nesse trecho há revelação, pois existe um Poder oculto que se esconde no inconsciente (a montanha) onde a ignorância sobre quem realmente somos e onde a força divina que liberta (consciência, Chama do Espírito) reside mas dorme em seu sono eterno! Só a Chama do Espírito (consciência plena) pode nos libertar da ilusão em relação as questões que vivemos diariamente e que por suas vez são as causas de nossas preocupações, dores e problemas.

Há uma soma que precisa ser feita para entendermos outras coisas bem mais ocultas. Então temos:

3 anéis (Elfos) + 7 anéis (Anões) + 9 anéis (homens) = 19 Anéis

Mas existem quatro raças principais e somente para três raças foram ofertados os anéis. Por que isso ocorreu? Por quê Sauron ignorava a raça dos Hobbits por considerá-la sem importância. É o ego desprezando o inconsciente e sua centelha divina!

É aqui que entra o Um Anel. Agindo nas sombras Sauron pretende controlar os desejos de todos. A consciência vai ser enganada pelas falsas percepções e o caos será o resultado final. Tudo isso é o resultado da vontade por mais e mais poder. Um ego distorcido, com uma visão unilateral do mundo e que não se importa com a vida dos outros e de todas as outras formas de vida. A força de Sauron, que é a força do Um Anel, reside no fato de que basta alguém desejar ter o poder do anel para, por ele, ser corrompido. Essas são forças que correspondem as correntes de pensamentos que se chocam por serem antagônicas mas complementares em seus propósitos finais. Ainda sobre isso temos uma citação nas explicações de Haldir, um dos súditos de Galadriel, que ao convidar Frodo, nas Terras de Lórien, para observar de um dos pontos mais altos das fronteiras daquela terra suas cercanias,  diz: “…Ali fica a fortaleza do sul da Floresta das Trevas – disse Haldir. – Está incrustada numa mata de abetos escuros, onde as árvores lutam umas com as outras e seus ramos apodrecem e definham. No meio, sobre uma colina rochosa, fica Dol Guldur, onde por muito tempo o Inimigo oculto tinha sua moradia. Tememos que agora esteja habitada outra vez, e com um poder sete vezes maior. Ultimamente uma nuvem negra paira sobre ela. Neste lugar alto você poderá ver os dois poderes que se opõem; e agora ambos sempre lutam através dos pensamentos, mas embora a luz perceba o próprio coração da escuridão, seu próprio segredo ainda não foi descoberto…”

Quando surge o Um Anel a grande provação dos Homens se apresenta e os 19 + 1 passam a fazer sentido com a escuridão se revelando através do Olho de Sauron. São dezenove anéis ofertados e cada um dos grupos de anéis contendo uma ordem divina de organização mas com o aparecimento do Um Anel o total de anéis passa a ser vinte e o número vinte representa a raça dos homens:

5 dedos x 4 = 20

Interessante também que o hinduísmo diz que uma era leva exatamente 432.000 anos para ser concluída, logo: 4+3+2=9 (fim de um ciclo).

Mais algumas coisas interessantes sobre a obra de Tolkien

Cada um dos quatro Hobbits podem ser associados as funções Junguianas:

  • Frodo – Pensamento.
  • Sam – Sentimento.
  • Pipim – Intuição.
  • Merry – Sensação.

A Trindade:

  • Légolas  –  O Divino em ação.
  • Gimli – A força bruta capaz de depurar ou realizar alquimias.
  • Aragorn – A mescla das duas forças anteriores em ação.

A dualidade: Gandalf e Boromir

Enquanto o primeiro representa a sabedoria e o próprio Divino o segundo representa a ignorância e o profano. Boromir morre, Gandalf morre e ressuscita transformado em um mago branco. Tolkien nos diz que o ego embrutecido precisa morrer e que a fé e a consciência pode transformar qualquer homem em um ser Divino desde que ele aja de acordo com a sua essência evitando dessa forma a concupiscência que é a energia que permite ao Um Anel dominar a todos os outro anéis e raças.

A sociedade do Anel

O número de integrantes é nove. O número de opositores também é nove, logo:

9 + 9 = 18 e  1 + 8 = 9

Aí está o poder dos opostos. Uma balança equilibrada mas que com o surgimento do Um Anel se desequilibra, pois como está escrito: “…A Era dos Elfos acabou, a Era dos Homens acabou , a Era dos Orcs começou…”

E Gollum?

Eu diria que Deus age de forma misteriosa em sua infinita sabedoria, pois Gollum uma criatura atormentada pelo bem e o mal se transforma no final em um agente de Deus. Tolkien escreveu sobre isso:

“O diabo pode tentar ser bom, e mesmo assim, continua diabo. Este é um grande mistério e uma profunda verdade cristã”.

Em Romanos 8:28 está escrito isso: “…Sabemos que Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam, dos que foram chamados de acordo com o seu propósito…”

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