A Temperança como caminho

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A MORTE

Existe uma grande diferença entre “transformação e transmutação”. No tarô o arcano XIII transforma, muda o nosso estado. É a Morte de um ciclo, de uma conjuntura, mas jamais será a morte da essência, pois a essência é permanente. Pense na água que evapora. Ela deixa de ser água por ter evaporado? É lógico que não! Isso é a “essência”.

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A TEMPERANÇA

Entretanto quando essa mesma essência é alterada ocorre a Transmutação. Os alquimistas afirmavam transformar o chumbo (Pb) em ouro (Au) …. Isso é a Temperança, Arcano XIV. Mas de que tipo de transmutação estou falando? Falo da transmutação essencial, da pedra angular, de todo o processo alquímico e que “deveria” ser aplicado por cada um de nós em nosso dia a dia: a mudança em nosso Ego. Muita gente encara isso como perda de tempo, até como bobagens… e a prova disso que escrevo é a grande quantidade de pessoas conflitadas em seus objetivos de vida, que estão andando por aí, de um lado para o outro, em busca de um caminho. Porém é uma “bobagem” que sempre nos custa muito caro! Acho tragicômico que ninguém investigue a fundo o sentido das palavras e que muito menos ainda se pense no ego como a grande causa de todos os nossos problemas. Não sou contra um ego forte, muito pelo contrário. Só um ego forte e bem construído é capaz de suportar a luz, o conhecimento, e compreender em seu íntimo que suas tendências e condicionamentos são importantes para o seu desenvolvimento. Sou contra o ego construído sem refinamentos, grosseiro por excelência, incapaz de ver o fogo de Prometeu e que se apega de forma irracional e inconsequente (para não dizer, de forma burra) em todas as suas experiências e percepções esquecendo-se que são os ciclos, e não o ego, que regem o ritmo dos acontecimentos em uma vida. Nessas horas lembro dos conselhos de Osho alertando para se ir sempre adiante, sem valorizar demasiadamente o conhecimento adquirido e não se iludir e se apegar abusivamente neles evitando-se, dessa forma, uma possível estagnação e uma limitação cada vez mais crescente dos processos envolvendo a consciência. Sempre, no fundo do tacho, está a resposta! Então raspe o tacho sempre que for possível! Mas quem se importa, hoje em dia, em buscar essas coisas? Mas voltando a essa “Temperança”; quem sabe misturar com segurança a água com o vinho para atenuar o tempero das coisas? Quem compreende um pouco de Kabbalah sabe que a Água / Chesed = Misericórdia (como elemento é chamado de Apas) é o Éter em seu estado aquoso. Esse Éter é a essência, mas o estado desse mesmo Éter pode ser “aquoso, ígneo, gasoso, pétreo, (uma vez cristalizados ou condensados surgem os 4 elementos em suas formas físicas) sem ainda estar e ser transmutado. O vinho / Guevurá = Severidade nos leva a pensar em uma balança quando se contrapõe e complementa a Água… confuso? Não, basta prestar atenção em você mesmo!

Vamos lá…

Passamos a vida inteira entre dois extremos, o certo e o errado. A dualidade é a regra, pois a comparação é a regra. A Temperança surge como um modelo de moderação: “Nem tanto ao céu, nem tanto a terra”. Então surge a necessidade do equilíbrio.

Misericórdia - Severidade

Se a Severidade for corretamente diluída na Misericórdia surgirá uma nova substância ou uma nova essência. Isso chamamos de Transmutação. O Ego é transmutado a partir de cada nova mistura. No caso da Temperança podemos entender que essa transmutação se dá adicionando Amor ao Julgamento (Água + Vinho = Chesed + Guevurá ou Amor + Severidade para julgar)

O que a Temperança nos diz é que podemos julgar com amor! Parece impossível? Para quem sinceramente se esforça com determinação para se compreender e compreender o seu próximo esse movimento de equilíbrio entre os opostos acaba revelando um processo muito rico em possibilidades e superações. É um novo mundo para quem busca com amor essa nova substância. Só entende o “julgamento com amor” quem realmente sentiu em seu íntimo o verdadeiro significado da frase, “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. Não se trata de palavras bonitas, de palavras de impacto ou de amor pelo próximo, puro e simples, se trata de uma chave e uma porta para quem sabe realmente reconhecer e interpretar o Poder contido nessas palavras. E quem pensa que se trata apenas do poder do Amor pelo Amor também não encontrou a resposta. Mas infelizmente as pessoas, de um modo geral, leem essa frase sempre no “raso” e não compreendem o significado mais profundo do que estão lendo ou pronunciando… A Temperança nos revela um terceiro caminho ou melhor, nos informa que sempre haverá um terceiro caminho! Mas para esse caminho ser autêntico há que se passar, primeiro, pelos processos alquímicos dentro de sua alma. Na dualidade está o Arcano da Justiça, pois posso estabelecer o peso de uma coisa a partir de outra e então tomo a minha decisão. Com a Temperança crio algo completamente novo e aqui está a beleza da coisa toda! Descubro que posso ampliar minha consciência e meus sentidos de forma excepcional, criando uma terceira alternativa, e me torno apto para “amar (sem limites) sem deixar de ser severo (com limites) ” ou seja, podemos transcender qualquer situação e/ou qualquer coisa sem nos afastarmos do ponto central de nossas questões. Essa é a alquimia perfeita! O Éter (A Alma) pode ser alterado…

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OS ENAMORADOS, THOTH TARÔ

Se no arcano dos Enamorados os opostos estão presentes revelando conflitos e dúvidas, na Temperança estes mesmos opostos estão em comunhão profunda (Fogo e Água). No Thoth Tarô esses processos alquímicos estão bem representados em suas lâminas. No caso da Temperança lê-se acima, no alto da lâmina: “Visita Interiorem Terrae, Rectificando, Invenies Occultum Lapidem” e sua tradução: “Visita o Centro da Terra, Retificando-te, encontrarás a Pedra Filosofal”. Quer algo mais claro do que isso? O “Centro da Terra” é o nosso ego em estado bruto, “Retificando-te é o mesmo que purificando-se (através das experiências, dos sentidos e percepções) e por último a “Pedra Filosofal” que é uma clara referência a verdadeira essência da nossa alma.

A Temperança nos convida a iniciar a reforma íntima. Mas não se engane; se você não sabe “ver”, não sabe “ler” e não sabe “ouvir” de pouco adiantará dizer que compreende o significado das palavras de Yeshua (Jesus) em sua mais ampla e profunda manifestação de Amor… E para encerrar, existem dois axiomas que reforçam esses princípios naturais:

INRI – Igni natura renovatur integra (A Natureza é completamente renovada pelo Fogo).
INRI – Iēsus Nazarēnus, Rēx Iūdaeōrum ( Jesus de Nazaré Rei dos Judeus).

Qual o ponto em comum entre os dois axiomas? A Transmutação! Yeshua pela morte e ressurreição e a Natureza que alcança também a sua morte, nasce e se renova continuamente pelo Fogo. Ambos criam algo novo, o tempo todo, através do mesmo processo alquímico.

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A TRINDADE EGÍPCIA

Vale lembrar aqui também que o signo de Peixes (Água) representa a Era de Yeshua e que toda Transmutação só é possível pelo Fogo. E outros “mitos” também revelam essa alquimia, quem conhece a história de Osíris, Ísis e Hórus? Hórus é o terceiro caminho gerado após a morte e ressurreição de Osíris.

Esse texto é para quem sabe ler nas entrelinhas… É para quem saber “ver” e para quem começou a ensaiar seus primeiros movimentos no caminho do Louco e no caminho do Mago…

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